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Perfume, lágrimas e coragem: o protagonismo feminino nos Evangelhos de Cristo

*Por Ana Maria Magalhães de Carvalho

Na narrativa dos Evangelhos, a presença feminina não é periférica — ela é estrutural. Em uma sociedade marcada por limitações severas à participação pública das mulheres, a atuação delas na vida de Jesus Cristo revela uma inversão silenciosa, porém profunda, de valores.

Entre essas mulheres, destaca-se Maria de Betânia, irmã de Lázaro. No Evangelho de João (12:1-8), ela derrama um perfume de nardo puro — guardado em alabastro e de altíssimo valor, equivalente a quase um ano de trabalho — sobre os pés de Jesus. O gesto, criticado por alguns como desperdício, é interpretado por Ele como expressão de amor, fé e compreensão espiritual. Maria antecipa simbolicamente sua morte e sepultamento, demonstrando sensibilidade que muitos discípulos não alcançaram.

Outra figura central é Maria Madalena. Presente na crucificação e, sobretudo, no relato do túmulo vazio (João 20:1-18), ela se torna a primeira testemunha da ressurreição. Esse detalhe é historicamente significativo: em uma cultura onde o testemunho feminino tinha pouco valor jurídico, os Evangelhos atribuem justamente a uma mulher o anúncio do evento mais importante da fé cristã. Isso sugere autenticidade no relato e, ao mesmo tempo, aponta para uma mensagem teológica poderosa — Deus escolhe quem a sociedade frequentemente marginaliza para revelar o essencial.

Não menos marcante é Maria mãe de Jesus. Sua trajetória é marcada por coragem desde o início: ao aceitar a missão anunciada pelo anjo (Lucas 1:38), até permanecer junto à cruz (João 19:25), acompanhando o sofrimento extremo de seu filho. A tradição associa esse momento ao caminho até o Gólgota — o lugar da execução. Sua presença ali não é apenas materna, mas também simbólica: ela representa fidelidade inabalável diante da dor e da injustiça.

Outras mulheres também desempenham papéis fundamentais. A samaritana (João 4) torna-se evangelizadora em sua cidade após dialogar com Jesus — um feito extraordinário, considerando as barreiras sociais e religiosas. A mulher que sofria de hemorragia (Marcos 5:25-34), ao tocar em Jesus, rompe tabus de pureza ritual e é elogiada por sua fé. Já Marta, irmã de Maria, expressa uma das mais claras confissões de fé: “Tu és o Cristo” (João 11:27).

O fato de uma mulher descobrir o túmulo vazio não é um detalhe acidental. Ele carrega um significado profundo: a subversão das expectativas humanas. Em vez de líderes religiosos ou autoridades, é uma mulher — considerada socialmente secundária — quem recebe primeiro a notícia que mudaria a história. Isso ecoa o padrão recorrente do ministério de Jesus: elevar os invisíveis, ouvir os silenciados e confiar aos improváveis as maiores responsabilidades.

Assim, as mulheres nos Evangelhos não são meras coadjuvantes. Elas compreendem, anunciam, servem, questionam e permanecem. Em um tempo que lhes negava voz, elas se tornam testemunhas privilegiadas de uma mensagem que atravessa séculos — lembrando que o valor de uma pessoa não é definido pelas estruturas sociais, mas pela profundidade de sua fé, coragem e amor.

*Presidente da AMPEP